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terça-feira, 31 de maio de 2011

O Poema


I  
Esclarecendo que o poema  
é um duelo agudíssimo  
quero eu dizer um dedo  
agudíssimo claro  
apontado ao coração do homem   

falo  
com uma agulha de sangue  
a coser-me todo o corpo  
à garganta   

e a esta terra imóvel  
onde já a minha sombra  
é um traço de alarme              

II             
Piso do poema            
chão de areia  
           
Digo na maneira            
mais crua e mais            
intensa           

de medir o poema           
pela medida inteira            

o poema em milímetro           
de madeira            

ou apodrece o poema           
ou se alteia            

ou se despedaça           
a mão ateia            

ou cinco seis astros           
se percorre            

antes que o deserto           
mate a fome  

in "Terra imóvel" - 1964

Luiza Neto Jorge (
Lisboa, 1939 — Lisboa, 1989)

sábado, 5 de dezembro de 2009

o mundo fica todo descabelado...

Exquisite Corpse drawing entitled The Lamp Smokes but the Nile Reeks (La lampe fume mais le Nil empeste) by André Breton, Thérèse Caen, Benjamin Péret, Yves Tanguy and Robert Rius c.1937

EU SUBLIME

UMA MANHÃ

Há gritos que não acabam mais
berros de terra agitada como um leque
desmantelado
por topeiras em conserva
por soluços de tábuas que alguém estripa
longos como uma locomotiva que vai nascer
por convulsões de árvores revoltadas que não querem
deixar subir a seiva
tanto como o metrô não aceita transportar avestruzes
nos seus túneis de barba mal-escanhoada
há gritos
aranhas de vitríolo que engulo sem perceber
perto desse rio gasto saído de um bocal de cachimbo
que não passa de um longo focinho
um pouco quente
um pouco mais resmungão que um caldeirão quase
vazio
este no que tu não vês como não vês a poeira de uma
hóstia
que o vento misturou
com a poeira do vigário semelhante ao sulfato de cobre
e à da igreja mais torta que um velho
saca-rolha
pois não estás mais aí do que não estou aí sem ti
e com isso o mundo fica todo descabelado.


PÉRET, Benjamin. Amor sublime: ensaio e poesia. Organização: Jean Puyade. Tradução: Sérgio Lima, Pierre Clemens. São Paulo: Brasiliense, 1985.