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sábado, 29 de outubro de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
O Poema

I Esclarecendo que o poema é um duelo agudíssimo quero eu dizer um dedo agudíssimo claro apontado ao coração do homem
falo com uma agulha de sangue a coser-me todo o corpo à garganta
e a esta terra imóvel onde já a minha sombra é um traço de alarme
II Piso do poema chão de areia Digo na maneira mais crua e mais intensa
de medir o poema pela medida inteira
o poema em milímetro de madeira
ou apodrece o poema ou se alteia
ou se despedaça a mão ateia
ou cinco seis astros se percorre
antes que o deserto mate a fome
in "Terra imóvel" - 1964
Luiza Neto Jorge (
Lisboa, 1939 — Lisboa, 1989)
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
baby jim
sábado, 5 de dezembro de 2009
o mundo fica todo descabelado...

Exquisite Corpse drawing entitled The Lamp Smokes but the Nile Reeks (La lampe fume mais le Nil empeste) by André Breton, Thérèse Caen, Benjamin Péret, Yves Tanguy and Robert Rius c.1937
EU SUBLIME
UMA MANHÃ
Há gritos que não acabam mais
berros de terra agitada como um leque
desmantelado
por topeiras em conserva
por soluços de tábuas que alguém estripa
longos como uma locomotiva que vai nascer
por convulsões de árvores revoltadas que não querem
deixar subir a seiva
tanto como o metrô não aceita transportar avestruzes
nos seus túneis de barba mal-escanhoada
há gritos
aranhas de vitríolo que engulo sem perceber
perto desse rio gasto saído de um bocal de cachimbo
que não passa de um longo focinho
um pouco quente
um pouco mais resmungão que um caldeirão quase
vazio
este no que tu não vês como não vês a poeira de uma
hóstia
que o vento misturou
com a poeira do vigário semelhante ao sulfato de cobre
e à da igreja mais torta que um velho
saca-rolha
pois não estás mais aí do que não estou aí sem ti
e com isso o mundo fica todo descabelado.
PÉRET, Benjamin. Amor sublime: ensaio e poesia. Organização: Jean Puyade. Tradução: Sérgio Lima, Pierre Clemens. São Paulo: Brasiliense, 1985.
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