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terça-feira, 31 de maio de 2011

O Poema


I  
Esclarecendo que o poema  
é um duelo agudíssimo  
quero eu dizer um dedo  
agudíssimo claro  
apontado ao coração do homem   

falo  
com uma agulha de sangue  
a coser-me todo o corpo  
à garganta   

e a esta terra imóvel  
onde já a minha sombra  
é um traço de alarme              

II             
Piso do poema            
chão de areia  
           
Digo na maneira            
mais crua e mais            
intensa           

de medir o poema           
pela medida inteira            

o poema em milímetro           
de madeira            

ou apodrece o poema           
ou se alteia            

ou se despedaça           
a mão ateia            

ou cinco seis astros           
se percorre            

antes que o deserto           
mate a fome  

in "Terra imóvel" - 1964

Luiza Neto Jorge (
Lisboa, 1939 — Lisboa, 1989)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

por não estarem distraídos

acervo pessoal da família

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992

sábado, 5 de dezembro de 2009

o mundo fica todo descabelado...

Exquisite Corpse drawing entitled The Lamp Smokes but the Nile Reeks (La lampe fume mais le Nil empeste) by André Breton, Thérèse Caen, Benjamin Péret, Yves Tanguy and Robert Rius c.1937

EU SUBLIME

UMA MANHÃ

Há gritos que não acabam mais
berros de terra agitada como um leque
desmantelado
por topeiras em conserva
por soluços de tábuas que alguém estripa
longos como uma locomotiva que vai nascer
por convulsões de árvores revoltadas que não querem
deixar subir a seiva
tanto como o metrô não aceita transportar avestruzes
nos seus túneis de barba mal-escanhoada
há gritos
aranhas de vitríolo que engulo sem perceber
perto desse rio gasto saído de um bocal de cachimbo
que não passa de um longo focinho
um pouco quente
um pouco mais resmungão que um caldeirão quase
vazio
este no que tu não vês como não vês a poeira de uma
hóstia
que o vento misturou
com a poeira do vigário semelhante ao sulfato de cobre
e à da igreja mais torta que um velho
saca-rolha
pois não estás mais aí do que não estou aí sem ti
e com isso o mundo fica todo descabelado.


PÉRET, Benjamin. Amor sublime: ensaio e poesia. Organização: Jean Puyade. Tradução: Sérgio Lima, Pierre Clemens. São Paulo: Brasiliense, 1985.

domingo, 29 de novembro de 2009

LA NOCHE


El libro de los abrazos, Eduardo Galeano, 1998

1

No consigo dormir. Tengo una mujer atravesada entre

los párpados. Si pudiera, le diría que se vaya; pero

tengo una mujer atravesada en la garganta.

2

Arránqueme, señora, las ropas y las dudas. Desnúdeme,

desnúdeme.

3

Yo me duermo a la orilla de una mujer: yo me duermo a

la orilla de un abismo.

4

Me desprendo del abrazo, salgo a la calle.

En el cielo, ya clareando, se dibuja, finita, la

luna.

La luna tiene dos noches de edad.

Yo, una.